domingo, 26 de junho de 2016

O Fascista Que Mora Na Pessoa Boa


"Ninguém nasce ciente da existência das outras pessoas: isso é uma coisa que a gente aprende com o nosso desenvolvimento, e alguns nunca aprendem a ver no outro um “si mesmo”, mas isso também é uma coisa que pode ser aprendida, e qualquer projeto de militância e de transformação do mundo que não leve isso em consideração não é um projeto que realmente possa tornar o mundo melhor."


Texto alternativo:

Eu me motivei a fazer este texto devido a algo que me aconteceu recentemente: fui alvo de perseguição e ameaça na internet em função do meu posicionamento político. Foi um caso de importância muito reduzida, que acabou dando em nada, mas nem por isso menos notável e digno de reflexão, pois representa uma pequena dose de um fenômeno bastante generalizado e cada vez mais no momento em que vivemos.

O sujeito que visava, através de incessantes provocações, coibir meu direito de expressar meu ponto de vista deixou bem claro que tem asco, pra não dizer ódio, porque considera meus pontos de vista prejudiciais para o mundo. Pra quem quiser saber que opiniões eram estas, basta ver meu vídeo intitulado “Lugar de Fala tem Lugar”, na qual eu critico alguns conceitos de certa militância contemporânea. Mas o mais notável é que este tipo de atitude se espera de um defensor do fascismo, e no entanto o sujeito estava supostamente no mesmo campo do espectro político do que eu, e supostamente defende a democracia. Supostamente com muitas aspas, é claro.

O que acontece é que dentro de cada um de nós existe um fascista. Em alguns ele dorme, em outros ele interfere e em outro ele manda, dependendo do quanto você alimentá-lo. E seu alimento é o ódio e o ressentimento. O que é o fascismo neste texto¿ Não estou me referindo à política de extrema direita de Benito Mussolini, que seria o sentido estrito. Tomo liberdade com a palavra e falo de um sentido mais abrangente, como sendo um ponto de vista autoritário, intolerante e insensível com a vida e a dignidade humana.

Se a democracia, em teoria, é um projeto de sociedade onde estão inclusas as diferenças e cada grupo tem seu espaço, além de oferecer respeito às liberdades individuais, o fascismo seria o oposto disso: a negação do outro, a exclusão da diferença e a recusa em considerar e respeitar a individualidade de outrem. E repito: todo mundo tem um fascista dentro de si: alguns sob controle, outros fora de controle.

E isso inclui pessoas integras do ponto de vista dos seus próprios valores morais. Podem ser pessoas honestas, até mesmo religiosas, e até mesmo preocupadas com os animais e aqueles que estão imediatamente ao redor. Porém, estas mesmas pessoas em geral podem acreditar que existe um certo grupo de pessoas que não são dignas de piedade, e das quais se pode agredir, violentar ou até mesmo eliminar.

Isso acontece porque ao viver num mundo cheio de injustiças, violências e misérias, as pessoas em geral acabam colocando a culpa disso tudo em certos grupos, assim como para o antissemita é o judeu, pro homofóbico é o gay, pro fundamentalista é o herege. Além dos fatores sociais, econômicos e políticos que levam as massas a ter este tipo de pensamento, existe o peso da cultura e das tradições.

Mas só estes fatores não bastam pra explicar este tipo de comportamento: existem explicações psicológicas e cognitivas em conjunto com os demais fatores que possibilitam esta ordem de preconceito. É que quando entramos em contato com o conhecimento de certos grupos de pessoas, criamos seus conceitos a partir da diferença, e assim temos uma representação mental daquele grupo que pode estar associado a muitas outras ideias boas ou ruins.

Creio que por uma espécie de instinto de sobrevivência as pessoas tem a tendência de ter medo das diferenças e a lhes atribuir qualidade depreciativas, e eventualmente eleger alguns como a causa principal de todas as mazelas do mundo. Estas associações costumam ser mais ou menos arbitrárias, mas aquele que acredita não é capaz de perceber as falhas do se pensamento porque seu discurso não é racional, mas é puramente passional.

Dentro da representação distorcida, as pessoas que compõe o grupo maldito não tem individualidade própria, e são vistos como meras extensões de uma espécie de entidade coletiva. É como se não fossem pessoas de verdade, mas espantalhos, e com estes não há problema algum em humilhar, torturar ou matar, pois eles são imorais. Não importa quão cruel seja a maldade praticada contra estas pessoas, serão sempre justificados porque afinal eles merecem ou são prejudiciais para o restante. É isso que diz o fascista dentro de cada um de nós, inclusive dentro da pessoa boa.

Os grupos de pessoas muitas vezes são selecionadas não com base no que elas pensam e fazem, mas com base em algo que elas nem puderam escolher, como cor, sexo, origem. Quando se trata de bandidos, mesmo assim é uma visão errada, mas é até mais fácil de compreender. Mas nossa sociedade possui algumas estruturas de poder muito bem estabelecido, e que marginaliza certos grupos, ela pode muito bem associar a negritude com o crime, a pobreza com a vadiagem, a homossexualidade com a devassidão, e tudo isso com o pecado.

Muitas vezes as pessoas reproduzem juízos que carregam esta dose de preconceito sem perceber. Expressões como “traveco”, “viado” ou “vadia” desumanizam certos grupos de indivíduos, transformando-os em caricaturas ou coisas, como se não fossem seres humanos, e o fazemos muitas vezes não por mal, mas por não compreender as consequências disso.

Mas como se trata de um processo natural, isso não ocorre apenas com aqueles que detém o poder ou privilégios. Este mesmo raciocínio (obviamente equivocado) ocorre aos que sofrem com eles, e portanto fazem uma associação automática de certos grupos de indivíduos com o que chamam de opressões estruturais, como a associação automática dos homens com o machismo, dos brancos com o racismo, dos héteros com a homofobia, em versões mais ou menos tacanhas.

Portanto, causas justas e necessárias também são afetadas por estas concepções equivocadas e podem ser danosas para indivíduos singulares ou para a própria causa. É claro que aqueles que compram este tipo de discurso que reduz toda a realidade num esquema simplório de amigo e inimigo geralmente criará discursos que justifiquem este pensamento.

Alguns alegam, por exemplo, que os oprimidos não estão errados quando generalizam seus inimigos porque não se trata de uma opressão estrutural. E eu até concordaria se fosse isso que estivesse em questão, mas nós alegamos que não é uma opressão estrutural mas é também uma forma de ignorância que eventualmente gera injustiças e violências desnecessárias; e felizmente muitos dos tais oprimidos não caem nesse tipo de erro, pois podem muito bem ser esclarecidos com relação a isso.

E, nesse espírito autoritário que por vezes domina as causas justas e populares, volta-se a julgar as pessoas não pelo que elas pensam ou fazem, mas pela cor, sexo ou origem, ou apenas por uma diferença de entendimento. Concepções como essas nascem do ressentimento, que também é alimento para o nosso fascista interior, e por mais justificável que seja o ressentimento, importa ter cuidado pra que ele não turve nosso discernimento.

Pra quem não foi capaz de entender, não estou dizendo que estas pessoas são fascistas. O que eu digo é que há um fascista dentro de todos que podem ou não acrescentar um elemento fascista no pensamento e na ação dependendo do quanto ele é alimentado pelo ódio. O ódio é um sentimento comum cuja evocação é mais ou menos involuntária, e muitas vezes sua presença é perfeitamente justificada e inevitável. Muitas vezes podemos identifica-lo em nós e tentar lidar com ele. Alguns, porém, transformam o ódio e o ressentimento em doutrina. Nada de bom pode sair daí, e o ódio, que tantos problemas já criou, nunca resolveu nenhum. O que já resolveu problemas foi outra coisa.

O fascista que mora dentro de cada um de nós pode ser combatido através da razão, da sensibilidade e da empatia, lembrando que empatia não é colocar-se no lugar apenas dos seus, mas sim do outro, do diferente, e reconhecer em cada ser humano uma individualidade. Exercitar isso não só é bom, mas é possível e necessário, ainda que exija certo esforço, caso realmente queiramos mudar o mundo pra melhor. Quem quiser melhorar o mundo tem que tentar transformar também a si mesmo.

Desta forma podemos aprender a aceitar as diferenças, os outros pontos de vista, salvo no caso de discurso de ódio, que não temos que hostilizar quem pensa diferente, nem obriga-los a ser como nós; que não devemos julgar os indivíduos em função de fatores que não foram da sua escolha, e mesmo quando são, não vê-las sempre com o olhar enviesado, com um raciocínio viciado nos velhos julgamentos injustos, apressados e irrefletidos, mas com certa abertura para se pôr no lugar daquele e compreendê-lo sempre um pouco melhor. E compreender que a violência, em todas as suas formas, deve ser usada somente para a defesa, quando esta se faz necessária, e sempre como o último recurso.

Ninguém nasce ciente da existência das outras pessoas. A alteridade é algo que aprendemos com o desenvolvimento, e alguns nunca aprendem a ver no outro um “si mesmo”, mas isso também é passível de aprendizado. Qualquer projeto de sociedade que não compreenda isso, não é um projeto que realmente possa tornar o mundo melhor.