domingo, 17 de janeiro de 2016

Militância Acrítica 1: Lugar de Fala Tem Lugar



"Uma parte da militância é confronto e rompimento, mas outra parte é consenso, diálogo e convivência. Esta parte não é descartável. Ela é essencial."
"As minorias seriam maioria se estivessem unidas, e o dia que cada um pensar apenas na própria causa, não haverá esperança para nenhuma dessas minorias."




Transcrito do vídeo:

Só dê sua opinião depois de ter visto o vídeo até o fim.

Todos os meus vídeos até hoje eram dirigidos para o público em geral, mas desta vez resolvi inaugurar uma série que eu dirijo a alguns setores da esquerda por entender que é necessário estabelecer um diálogo com eles: abrir um espaço para esclarecimento de certos conteúdos é imprescindível na medida que algumas concepções, vistas e tratadas de forma superficial, ou mesmo levianamente, podem ser extremamente danosas. É uma serie, então, por uma esquerda mais crítica.

Nas últimas décadas esteve crescendo dentro dos movimentos sociais um debate sobre quem tem direito à palavra sobre determinadas causas e militâncias. E o resultado dessas discussões muitas vezes termina numa tensão: de um lado militantes de uma determinada causa que sentem seu espaço invadido e controlado e, do outro, não se veem na possibilidade de participar ou de compartilhar ideias e informações.

Muitos intelectuais da contemporaneidade demonstraram como grupos minoritários ou marginalizados foram silenciados através da história: sua visão de mundo, suas experiências, sua identidade própria foi muitas vezes negligenciada pela visão de mundo “oficial”, e até mesmo pelas próprias esquerdas. Assim, foi demonstrado que é preciso levar em consideração a experiência particular do negro, da mulher, do gay, do trans, etc, sobre o que eles pensam de si mesmos e na condição que eles vivem no mundo. É preciso que tenham voz e é preciso que seja levado em consideração inclusive os aspectos subjetivos que dizem respeito à sua identidade, e não simplesmente deslegitimado por um suposto observador “neutro”, um portador da verdade, e aliás, que verdade?

Daí também se conclui que, na luta pela emancipação de determinado grupo, quem deve protagonizar tal luta são os próprios membros do grupo, ou seja, os negros e não os brancos no combate ao racismo, as mulheres e não os homens no combate ao machismo, e assim por diante. Com “protagonizar” entende-se que estes grupos devem ser dirigidos pelos seus próprios representantes, para que possam se basear na sua própria experiência, e não sendo rebocados pelas maiorias ou na dependência daqueles que não sofreram dos problemas contra qual eles lutam.

Eu pessoalmente concordo com tudo isso. Mas, a partir deste entendimento nasceram uma porção de práticas e concepções que, por honestidade intelectual, eu sou obrigado a questionar, e vou justificar meus pontos aqui. Eu sei que este vídeo pode ser assistido por pessoas que eventualmente estão acostumados a dar respostas prontas e imediatas às posições opostas, mas eu gostaria de abrir este inquietamento para que vocês pensem e ouçam de maneira disposta os argumentos que eu vou apresentar.

Já vi, por exemplo, em nome do “protagonismo”, militantes atacarem outros militantes por fazerem uma coisa que sempre foi prática na militância, que é apoiar outras causas. E quando digo “apoiar”, eu não estou dizendo quere dirigir ou querer roubar o protagonismo, mas simplesmente de participar e as vezes até mesmo de querer prestar apoio. Um exemplo bastante comum e até patético que a gente vê nas redes sociais são certas feministas rechaçando alguns homens por estes estarem apenas declarando apoiar o feminismo. Estariam confundindo prestar solidariedade com roubo de protagonismo? Não haveria uma diferença importante entre essas duas coisas?

Ou quando este explana a respeito do tema, também acontece de militante também rechaçá-lo em nome da conquista dos “espaços”, como se um branco falar sobre o racismo, por exemplo, exclui um negro de falar disso naquele mesmo espaço, visto que na opinião destes não há espaço para ambos se expressarem. É preciso refletir com muita calma aqui: existem, de fato, circunstâncias em que o espaço deve ser reservado para aquele que representa uma luta. Trata-se de ocasiões importantes em que essa reserva é producente, e não simplesmente qualquer circunstância em que se vir um branco falando sobre racismo. É preciso ter algum critério para discernir cada caso.

Essa é uma tendência à criação de guetos indentitários nas quais não há circulação de ideias. Se é vedado ao outro o direito mesmo de falar a respeito da causa alheia, quem dirá então participarem ativamente dessas militâncias, discutindo, propondo e agindo? Isso acaba ficando totalmente fora de questão, e aliás, existe uma concepção medonha da qual o não-oprimido não só não pode falar sobre estes temas, mas não pode nem pensar sobre eles: há quem acredite que, se você não viveu algo, você não é capaz compreendê-lo. Uma incapacidade cognitiva, pois aquele que tem algum privilégio na sociedade desenvolve sua visão de mundo sempre em função da causa própria, que é apenas dominação e aparências. A “essência”, só o oprimido vê. Então, se o hetero está falando de homofobia, não resta dúvidas de que ele merece uma retaliação pedagógica, com agressividade, de preferência. Claro que estou fazendo uma simplificação aqui, mas pelo visto tem gente que pensa isso.

Muitos destes militantes pretendem estar partindo das ideias de certos filósofos, dos quais eu admito que não sou nenhum especialista. Dos que eu já li e que podem ter exercido uma grande influência está o Michel Foucault, e definitivamente ele nunca falou essas coisas. Suponho que tenha havido uma perversão dos conceitos destes autores, seja por uma má leitura ou por uma má intenção, para endossar esta retórica. Eu imagino o Foucault olhando essa galera e baixando a cabeça, triste. E não citaria tão somente a Foucault – embora este seja o único que eu tenho certo domínio – mas creio que seja possível abranger estas questões também para outros autores, como Judith Butler, Simone de Beauvoir, entre outros: a agressão ao opressor merece posição, contexto e reais problemáticas para além do mero debate ou da divergência ideológica.

Esta militância em questão muitas vezes é rotulada de "pós-moderna", pecha que eu considero injusta com a filosofia pós-moderna, pois, apesar dela ter aberto precedente pra este tipo de coisa, do ponto de vista filosófico ela traz reflexões perfeitamente válidas e de forma alguma se resume à tal atitude mental acrítica. Esta filosofia também já foi rotulada de irracionalista, rótulo que eu também nem sempre considero justo, mas para esta militância em questão eu considero justo.

Chamo de militância irracionalista porque nega o papel da razão no entendimento do outro ou de outro grupo social, desacreditando assim que a linguagem possa informar alguém adequadamente sobre uma dada situação, privilegiando apenas os aspectos subjetivos: a “vivência”, então, foi eleita como o critério único para o entendimento. Tal afirmação é contraditória por si só uma vez que ela é objetiva e racional (mesmo que equivocada).

Vamos deixar uma coisa clara: quando alguém tem uma vivência sobre algo, isso pode sim ter peso sobre o argumento, uma vez que ela viu ou sentiu aquilo em primeira mão. Mas em casos específicos! se uma mulher disser que é ofensivo levar cantada na rua, não adianta um homem querer dizer que é elogioso, pois como ele pode saber como as mulheres se sentem? Só que a vivência é fator a se levar em consideração em maior ou menor grau dependendo da circunstância e da ideia apresentada, e é preciso ter algum discernimento para saber separar uma coisa da outra, e não simplesmente eleger isso arbitrariamente como único legitimador de um discurso.

Em primeiro lugar, a princípio, ninguém tem a mesma vivência que ninguém. Cada um tem as suas próprias vivências singulares e, se fosse assim ninguém poderia falar em nome de ninguém, nem um negro em nome dos outros, nem uma mulher em nome das outras. Porém, a coisa não é bem assim, pois o ser humano possui a faculdade da razão, faculdade esta que é universal e que transcende a experiência imediata. Não estamos trancados na nossa própria experiência particular, ou então a própria comunicação seria impossível. Através da comunicação e da razão, é possível que uma pessoa entenda uma mensagem seja lá de onde venha.

E se fosse verdade que só o gay entende o gay e só a mulher entende a mulher, então também seria verdadeiro que só o hetero entende o hetero e só o homem entende o homem, e aí vocês também não poderiam fazer nenhuma crítica. Percebe que se o primeiro enunciado é válido, o segundo também é? E não adianta recorrer pra uma retórica de que os opressores são cegos e só os oprimidos têm acesso à “verdade”. Isso iria contra a própria retórica da vivência que vocês sustentam, se vocês forem capazes de ser consequentes com o próprio pensamento.

Se a vivência fosse referência para a verdade, então não haveriam tantos oprimidos ignorantes da sua própria condição e eles até mesmo concordariam com a maioria dos pontos. Por exemplo: se a vivência fosse o critério definitivo pra compreender determinada opressão, não haveriam tantos negros reproduzindo discursos e atos racistas, que vão desde negar a própria negritude até discriminar outros negros. Além disso, a maioria dos negros, senão todos, deveriam concordar com as mesmas concepções da militância. O mesmo seria verdadeiro no caso da mulher: se a vivência fosse o critério definitivo, não haveriam tantas divergências dentro do feminismo, sobre a condição da mulher, sobre a participação dos homens no feminismo, etc. Porém, como vocês podem notar, cada mulher tem a sua própria vivência individual, e isso não pode ser usado pra sustentar que existe um ponto de vista que seja o único legítimo “das mulheres”. Este critério não se sustenta.

No mais, recusar um argumento com base na sua fonte é cometer uma falácia chamada ad hominem que consiste em atacar o autor do argumento e não seu conteúdo. É uma forma barata de desqualificar uma ideia sem ter que pensar nela. Se o que você defende tem algum cabimento, você não precisaria utilizar esse tipo de desqualificação, e sim contra-argumentaria com base no que foi colocado. Lembre-se: quando um argumento é colocado, não interessa quem disse; atacar quem falou não tem valor de discussão e quem recorre a este tipo de falácia geralmente não está interessado na verdade, mas apenas em “vencer” a discussão.

Chega a ser patético que as verdades sobre as questões sejam eleitas com base não na apuração de conhecimentos estudados, mas sim na autoridade de quem disse, como tantas vezes na história da humanidade se recorreu à figura do sacerdote, do sábio, e mais recentemente na figura do especialista. Só que agora a autoridade emana do oprimido. Basta ser marginalizado que o sujeito já pode nos oferecer a maneira pela qual nós devemos entender o mundo. A experiência dela vale, a dos outros não, há uma hierarquia nas experiências das pessoas, bem diferente do que os pós-estruturalistas disseram.

Só falta esses militantes fazerem uma tabelinha das opressões para saber quem diz a “verdade”. Assim, João tem um argumento A e Maria tem um argumento B. A princípio, pode parecer que Maria é que diz a verdade, porque ela é mulher, mas aí descobrimos que João é Negro. E agora? Ah, mas a Maria também é negra, ela tem duas opressões, portanto é ela quem diz a verdade. Só que João além de negro é gay e paraplégico, ele tem mais opressões, tem mais vivência, portanto a vitória é do argumento dele. Vemos como a veracidade do argumento nada tem a ver com o argumento.

Pessoal, entendam uma coisa. Um argumento e uma discussão, para chegarem em algum lugar, precisam ter alguns critérios e rigores lógicos. A lógica não é uma simples retórica opressora, eurocêntrica e colonizadora inventada para justificar a escravidão; a lógica diz respeito não ao conteúdo de um argumento, mas à sua forma, e nem toda forma pode ser válida, ela não pode conter erros de raciocínio para ser corretamente compreendida. É preciso discutir a validade da forma do pensamento para que seja possível o próprio entendimento. Por exemplo: se eu te disser que vi um círculo com quatro pontas, você não tem como entender o que eu falei, porque o que eu falei é ilógico. Círculos não tem pontas por definição, e não, não estou sendo ponto-fóbico e nem círculo-normativo. Você simplesmente não pode compreender o que foi dito porque a fala não teve lógica.

Se, por exemplo, uma pessoa diz que é contra os muçulmanos porque eles são terroristas, esta afirmação é falsa (ser muçulmanos não é sinônimo de ser terrorista) e portanto o seu argumento falha no conteúdo. Agora, se ela tentar justificar a fala dela recorrendo ao atentado às torres gêmeas ou na França pra demonstrar que muçulmanos são terroristas, então ela vai estar errando na forma (existem muçulmanos terroristas sim, mas isso não quer dizer que sejam todos) ela estará recorrendo à falácia da generalização apressada. E se você tentar contra-argumentar esta pessoa, ela ainda pode te acusar de estar defendendo o terrorismo, errando mais uma vez na forma (não ser contra os muçulmanos não é o mesmo que ser a favor do terrorismo) é a falácia da falsa dicotomia. Nestes casos nós até conseguimos entender o que a pessoa está dizendo, mas percebemos que o raciocínio dela não tem validade. Quando você desqualifica alguém com base na “vivência” ou “lugar de fala”, você pode estar fazendo a mesma coisa: apelando para um raciocínio equivocado.

Além do mais, não basta que a lógica seja observada. Uma opinião tem que se basear em algum conhecimento, e isso exige estudo. Para entender o racismo, por exemplo, não basta senti-lo na pele. Sentir na pele ajuda a pessoa a entender, é claro, mas só isso não basta, tanto é que tem quem sinta na pele e mesmo assim não entenda. Pra entender o racismo é preciso estuda-lo: estudar a sua origem, sua história, seu funcionamento, e é possível estudar estas coisas independente da cor de quem estuda.

É claro que não se deve simplesmente reivindicar seus estudos pra apelar à autoridade, como aquele que diz: já estudei isso, isso e aquilo e portanto sou o dono da verdade. A importância de estudar é compreender os estudos para apresentar os conhecimentos e fundamentar os argumentos, que estarão sujeitos à contra-argumentação. Além disso, a partir dos conhecimentos estudados podemos extrair mais de uma interpretação, o que só reforça a importância da discussão e de compreendermos mais de um ponto de vista, mesmo que não concordemos com ele.

Uma das coisas mais esdruxulas que se observa nesses militantes é a utilização da expressão “silenciar” para quem discorda deles. Discordar não é silenciar. Se você reclama de estar sendo silenciado por alguém discordar de um ponto de vista seu, então você é uma criança mimada que não suporta ser contrariada. Silenciar é impedir uma pessoa de falar ou desconsiderar o que ela diz, desqualifica-la em função da sua condição. E se você desqualifica uma pessoa dizendo que ela está te silenciando por estar te contradizendo, é você é que está silenciando ela. E não entra em questão aqui se a pessoa é privilegiada e se supostamente sempre foi ouvida pela sociedade, naquele momento é você que estava silenciando ela e, portanto, apresentando a sua falta de argumentos.

Eu concordo plenamente que um homem não deva falar em nome do feminismo, um branco falar em nome do movimento negro, etc. Mas isso não significa que eles não possam falar sobre. Primeiro pela simples razão de que todas as pessoas têm o direito de ter ideias e de expressá-las. Uma vez que essas ideias são expressas, os discordantes têm todo direito criticá-las, mas não de criticar o direito de expressá-las (salvo em caso de discurso de ódio). Portanto, quando um hetero fala sobre o movimento lgbt, os gays militantes discordantes tem todo direito de criticar o que ele disse, mas não devem questionar o seu direito de falar.

Além do mais, e isso parece que não entra na cabeça das pessoas, é que todas essas bandeiras não dizem respeito somente aos movimentos que eles representam ou são protagonizados. Elas tem em si um novo projeto de sociedade, sociedade na qual os demais continuarão existindo. Portanto é do interesse de todos discutir esses temas.

Sendo assim, os “outros”, os “não-negros”, os “não-gays”, podem estar perfeitamente interessados no fim do racismo e da homofobia, por exemplo, e, se são capazes de entender que eles não protagonizam nem controlam os respectivos movimentos, podem pelo menos fazer a sua parte. Como apoiar estas causas lhes interessa, é natural que eles participem de discussões, pra aprender, compartilhar suas ideias, suas experiências e, se possível, contribuir. Não há nada de errado na discussão: ela é, ou deveria ser, saudável. A ausência dela é que é insalubre, e geralmente é sintoma de dogmatismo e do pensamento acrítico.

Em discussões, pontos de vista diferentes se chocam. O que não deveria haver é o choque de egos, de vaidades. Problematizar determinado assunto não é deslegitimá-lo. Todos os movimentos sociais devem buscar manter-se críticos e autocríticos, com compromisso pelo conhecimento e na buscando estar em constante melhoramento. Isso envolve criticar e ser criticado, falar e ouvir. Olhar para si sem preconceitos e sem medo de repensar e reciclar sua bagagem. Vamos acabar com esses discursos prontos que servem somente para repelir diálogos. Por trás de quem faz isso geralmente há pessoas que interpretam o que foi dito sempre de maneira enviesada; que não conversam, agridem; e terminam geralmente por “vencer” a discussão através da rotulação. Uma série de jargões e frases pré-fabricadas celebram não apenas a falta de argumentos, mas a própria incapacidade de dialogar. Crianças mimadas também se comportam assim: não podem se ver contrariadas sem baterem o pézinho.

Porque considero importante discutir isso? É importante que as militâncias cheguem à consensos e ajam juntas, que integrem lutas e que, ao menos, sejam capazes de ter raciocínios válidos para poder agir de maneira eficaz. As minorias seriam maioria se estivessem juntas, e o dia que cada um pensar apenas na própria causa, não haverá esperança para nenhuma dessas minorias.

Uma parte da militância é confronto e rompimento, mas outra parte é consenso, diálogo e convivência. Esta parte não é descartável. Ela é essencial. Se você não tem paciência pra discutir mesmo com quem está disposto a conversar, então você não precisa ser militante. Você pode fazer outra coisa, pode prestar apoio, pode até não fazer nada, mas sair por aí fazendo birra em discussões é um desserviço à qualquer causa, a não ser a do inimigo, é claro.