quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Para compreender o que está se passando na Venezuela

Apoiadores do líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, em protesto dia 20 de fevereiro
Seria pretensão achar que a reviravolta que está havendo na Venezuela pode ser compreendida de maneira imediata e cristalina. Embora os comentadores deem seu veredicto como se a verdade fosse evidente, há muitos fatos que passam despercebidos, e para mim também. Não quero ser mais um desses comentadores, mas já que não posso contemplar aqui todos os pontos de vista, darei minha interpretação dos fatos, que, pretendo, é o contraponto da versão “oficial”. 

1. Contextualizando

Uma revolução é quando o povo derruba pela força um governo ilegítimo, ou seja, que não o representava. Um golpe é quando uma minoria derruba pela força um governo, podendo este ser legítimo ou não. Os golpistas, entretanto, se dizem e muitas vezes se veem como revolucionários.

Nas Américas existe uma ordem econômica hegemônica. É hegemônica porque é dominante, mas seu domínio não é absoluto, existem outras ordens, existem resistências. Esta ordem hegemônica é imposta por países ricos e órgãos de crédito internacionais como FMI, Banco Mundial, etc, de maneira a promover vantagens comerciais para os mesmos. As resistências, aqueles que peitam o neoliberalismo, peitam as multinacionais e que protegem a soberania nacional, têm um preço a pagar.

Na Guatemala, por exemplo, em 1954, o governo dos EUA, através da CIA, ajudou a derrubar o governo eleito pelo povo pra implantar uma ditadura militar. Por quê? A principal razão era o fato do governo guatemalteco querer realizar uma reforma agrária, o que ia prejudicar empresas estadunidenses, entre elas a United Fruits CO. Por incrível que pareça, os Estados Unidos da América, “terra da liberdade”, contribuiu com a implantação de todas as ditaduras militares na América Latina do século passado, pelo menos depois da segunda guerra.

Monumento de Oscar Niemeyer
Muitos desses governos derrubados por golpes eram legítimos e contavam com apoio popular. Como então uma força externa pode derrubar um governo que, por sua vez, conta com apoio popular? Existe, dentro de cada país, um grupo de pessoas que será beneficiada com o golpe. Essa minoria tem dinheiro: são os donos de empresas, de bancos, de latifúndios, e tendo este poder, costumam possuir também os meios de comunicação e, de quebra, tem ao seu lado as forças armadas. Por quê? Porque eles têm uma ideologia, que é também a ideologia das forças armadas, e essa ideologia convence muitas pessoas que nem seriam beneficiados com o golpe, mas ficam achando que seriam. Essa ideologia faz o golpe parecer uma revolução e seu discurso faz a ditadura parecer uma garantia da democracia. 

Para se derrubar um governo existem várias táticas que a CIA promove metodicamente. No Chile, por exemplo, Salvador Allende venceu pelas urnas e em seu governo realizou-se uma rápida e pacífica reforma agrária, criou o maior conjunto de habitações da história, garantiu atendimentos médicos gratuitos, pleno emprego para todos os adultos e uma progressiva descentralização do poder através de assembleias populares, para enumerar apenas alguns de seus feitos.

O primeiro passo dos opositores foi a difamação. Criaram uma verdadeira campanha de notícias falsas sobre o governo Allende para denegrir sua imagem inclusive fora do país. Depois começaram as sabotagens à economia, o locaute (greve dos patrões) e, em seguida, o desabastecimento, desaparecimento de produtos de primeira necessidade. Os detentores dos meios de produção podiam fazer faltar tais produtos, como café, açúcar ou papel higiênico, para gerar um mal estar com relação ao governo e “provar” a incompetência do presidente, fazendo parecer que foi culpa de sua administração. Uma pergunta: porque esse tipo de coisa costuma acontecer só em governos ditos de esquerda? Porque a distribuição de renda mais igualitária prejudica precisamente aqueles que detinham a concentração, e são essas pessoas que têm poder pra realizar sabotagens deste tipo. Quando as coisas andam “normais”, com os ricos podendo permanecer ricos e os pobres, pobres, não há necessidade para tudo isso.

O caos social que se gera dá condições para depor o presidente. Mas o povo chileno estava com Allende: em 4 de setembro de 1973, quando meio milhão de chilenos marchavam nas ruas gritando: “Allende! Allende! El pueblo te defiende!” Não teve jeito. Uma fração insurreta do exército deu o golpe, tornando Pinochet o novo presidente e implantando um regime de terror, o mais sanguinário do século passado na América Latina.

2. Na Venezuela

Hugo Chavéz venceu eleições para presidente na Venezuela três vezes consecutivas, em eleições como as de qualquer país democrático. Teve uma distinção, porém: fez um governo para o povo pobre e proletário. Em seu governo, 43,2% do orçamento foi dedicado à políticas sociais, 20% só na educação (no Brasil é 8%). A taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). Para ampliar a participação popular na administração pública, em 1999 foi eleito por mais de 80% da população, através de um referendo, uma nova Constituição. As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, depois passou a ter mais de uma por ano, em condições de legalidade democrática, para que o povo pudesse votar não apenas nos representantes, mas também nas leis.

Por que, então, chamam-no ditador? Porque para realizar estas ações ele teve que recuperar a soberania nacional, e para isso nacionalizou o petróleo, peitou as multinacionais e as políticas econômicas neoliberais, avançou na reforma agrária. Tudo isso limita os lucros exorbitantes da burguesia nacional e reduz a fonte de lucro para a internacional. É por isso que o chamam ditador. Estranha ditadura que possui vários municípios e Estados governados pela oposição. Igualmente estranho uma ditadura na qual os donos da maioria dos meios de comunicação são contra o governo: 80% da imprensa escrita e também a maior parte da imprensa televisiva e radiofônica – estes usam a imprensa livre para dizer que não há liberdade de expressão. Chavéz não fechou um canal de TV? Não, ele apenas não renovou uma concessão de um canal que cometeu um crime. Que crime? Fomentou o golpe de estado de 2002.

Em 2002 e houve uma tentativa de golpe, que durou dois dias, mas a revolta da população fez devolverem o poder ao governo eleito. Eis o documentário a respeito: A Revolução Não Será Televisionada. No ano que seguiu houve locaute. E assim, várias revoltas das classes médias e altas para tentar desestabilizar o governo. As urnas estavam lá, esperando. No país há uma constituição que o governo segue à risca.

Panfleto da oposição violenta
(protestos de agora)
Em 2013 Hugo Chavéz morreu. Houve novas eleições, venceu Nicolás Maduro, do mesmo partido de Chavéz. Os descontentes provocaram uma onda de violência pelo país o que levou sete pessoas à morte e mais de 60 feridos. Foi incendiada a sede do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela – de Chávez e Maduro) em dois Estados.

Este ano, mais uma vez na história, faltam produtos de primeira necessidade. Culpam a administração da economia. Se a economia da Venezuela vai mal, eu ignoro, muito sinceramente. Mas os números sociais continuam indo bem – Maduro pode não ser Chavéz, talvez não possua seu talento e nem sua liderança, mas procurou manter os avanços em prol do povo.

Semana passada o líder oposicionista Leopoldo Lopes convocou um protesto contra Maduro. Lopez não reconhece a legitimidade do governo de Maduro e seu discurso era de permanecer nas ruas até derrubar o presidente. A manifestação foi violenta, chegando os manifestantes a incendiarem o prédio do ministério público da Venezuela! Nesse caos houveram quatro mortes, das quais aconteceram em condições um tanto obscuras. (Seria fácil pra mim culpar a oposição, mas não quero ser leviano).

Depois disso o governo mandou prender Leopoldo Lopes. O fato foi noticiado por toda imprensa burguesa como prova da intolerância do governo, como se num país não houvessem leis. Maduro também expulsou três embaixadores estadunidenses, acusado-os de golpistas. Interessante que esses mesmos embaixadores se reuniram aos oposicionistas nas vésperas da manifestação. Já viram embaixadores estrangeiros organizando manifestação? Teriam sido expulsos de qualquer país do mundo.

O ressentimento gerado pela prisão de Lopez trouxera mais oposicionistas às ruas. Uma campanha de difamação foi criada: divulgaram notícias falsas de que iniciara uma guerra civil, algumas versões diziam que haviam milhares de mortos pela repressão do governo! O principal instrumento para a campanha de difamação foi a internet, onde utilizaram dezenas de imagens falsas e descontextualizadas, fotos de repressão em diversas partes do mundo, como se estivessem acontecendo naquele momento, e de outras manifestações massivas do passado como se fosse o povo nas ruas, exigindo liberdade. Veja as imagens desmentidas nesse link: Protestos na Venezuela: web é usada para difundir imagens falsas ou descontextualizadas

Felizmente aqueles que estão do lado de Maduro também realizaram uma manifestação massiva em favor do presidente. O governo venezuelano decidiu aumentar as suas reservas alimentares estratégicas depois desse período de escassez planejada e cria um conselho para combater sabotagens econômicas.

Já a nossa emissora de televisão rede Globo, uma das crias do regime militar instaurado no Brasil em 1964 (também com apoio dos EUA), nos trouxe as notícias de forma um tanto deturpadas. Ironicamente, a emissora permitiu este lindo debate: http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/v/especialistas-debatem-perspectivas-politicas-da-venezuela-apos-prisao-de-lider-da-oposicao/3157867/

O povo venezuelano no funeral de Hugo Chavéz

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Manifesto de repúdio às propostas de tipificação do crime de Terrorismo


Pelo presente manifesto, as organizações e movimentos subscritos vêm repudiar as propostas para a tipificação do crime de Terrorismo que estão sendo debatidas no Congresso Nacional, através da comissão mista, com propostas do Senador Romero Jucá e Deputado Miro Teixeira.

Primeiramente, é necessário destacar que tal tipificação surge num momento crítico em relação ao avanço da tutela penal frente aos direitos e garantias conquistados pelos diversos movimentos democráticos.

Nos últimos anos, houve intensificação da criminalização de grupos e movimentos reivindicatórios, sobretudo pelas instituições e agentes do sistema de justiça e segurança pública. Inúmeros militantes de movimentos sociais foram e estão sendo, através de suas lutas cotidianas, injustamente enquadrados em tipos penais como desobediência, quadrilha, esbulho, dano, desacato, dentre outros, em total desacordo com o princípio democrático proposto pela Constituição de 1988.

Neste limiar, a aprovação pelo Congresso Nacional de uma proposta que tipifique o crime de Terrorismo irá incrementar ainda mais o já tão aclamado Estado Penal segregacionista, que funciona, na prática, como mecanismo de contenção das lutas sociais democráticas e eliminação seletiva de uma classe da população brasileira.
Nesta linha, o inimigo que se busca combater para determinados setores conservadores brasileiros, que permanecem influindo nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é interno, concentrando-se, sobretudo, nos movimentos populares que reivindicam mudanças profundas na sociedade brasileira.

Dentre as várias propostas, destaca-se o Projeto de Lei de relatoria do Senador Romero Jucá, que em seu art. 2º define o que seria considerado como Terrorismo: “Art. 2º – Provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa, por motivo ideológico, religioso, político ou de preconceito racial ou étnico: Pena – Reclusão de 15 a 30 anos”.

Trata-se, inicialmente, de uma definição deveras abstrata, pois os dois verbos provocar e infundir são complementados pelos substantivos terror e pânico. Quem definiria o que seria terror e pânico? Como seria a classificação do terror e pânico generalizado? Ora, esta enorme abstração traz uma margem de liberdade muito grande para quem vai apurar e julgar o crime. Além disso, esse terror ou pânico generalizado, já de difícil conceituação, poderia ser causado, segundo a proposta, por motivos ideológicos e políticos, o que amplia ainda mais o grau de abstração e inconstitucionalidade da proposta.

É sabido que as lutas e manifestações de diversos movimentos sociais são causadas por motivos ideológicos e políticos, o que, certamente, é amplamente resguardado pela nossa Constituição. Assim, fica claro que este dispositivo, caso seja aprovado, será utilizado pelos setores conservadores contra manifestações legítimas dos diversos movimentos sociais, já que tais lutas são realmente capazes de trazer indignação para quem há muito sobrevive de privilégios sociais.

Também a proposta do Deputado Miro Teixeira revela o caráter repressivo contra manifestações sociais, evidenciada em um dos oito incisos que tipifica a conduta criminosa: “Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado”. Verifica-se, portanto, que as propostas são construídas sobre verdadeiros equívocos políticos e jurídicos, passando ao largo de qualquer fundamento ou motivação de legitimidade.

Agregue-se, ainda, o cenário de repressão e legislação de exceção paulatinamente instituídos pela agenda internacional dos grandes eventos esportivos, solapando a soberania política, econômica, social e cultural do povo brasileiro, e a fórmula dos fundamentos e motivações da tipificação do crime de terrorismo se completa, revelando a sua dimensão de fascismo de estado, incompatível com os anseios de uma sociedade livre, justa e solidária.
Já contamos quase 50 anos desde o Golpe de 64 e exatamente 25 anos desde a promulgação da ‘Constituição Cidadã’. Nesse momento, diante da efervescência política e da bem-vinda retomada dos espaços públicos pela juventude, cumpre ao Congresso Nacional defender a jovem democracia brasileira e rechaçar projetos de lei cujo conteúdo tangencia medidas de exceção abomináveis como o nada saudoso ‘AI-5’.

Desta maneira, repudiamos veementemente estas propostas de tipificação do crime que, sobretudo, tendem muito mais a reprimir e controlar manifestações de grupos organizados, diante de um cenário já absolutamente desfavorável às lutas sociais como estamos vendo em todo o Brasil.

Actionaid Brasil
Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo – ABEA
Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo – AEPPSP
Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB
Associação Juízes Para a Democracia – AJD
Associação Missão Tremembé – AMI
Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP
Bento Rubião – Centro de Defesa dos Direitos Humanos
Cearah Periferia
Central de Movimentos Populares – CMP
Centro de Assessoria à Autogestão Popular – CAAP
Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social – CENDHEC
Coletivo Desentorpecendo a Razão – DAR
Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa – ABI
Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de São Paulo
Comitê Pela Desmilitarização
Comitê Popular da Copa de SP
Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro
Conectas
Confederação Nacional de Associações de Moradores – CONAM
Conselho Federal de Serviço Social – CFESS
Coordenação do Fórum Nacional de Reforma Urbana
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE
Federação Interestadual dos Sindicatos de Engenharia – FISENGE
Federação Nacional das Associações de Empregados da Caixa Econômica – FENAE
Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas – FNA
Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil – FENEA
Fórum da Amazônia Oriental/ GT Urbano – FAOR
Fórum Nordeste de Reforma Urbana – FneRU
Fórum Sul de Reforma Urbana
Fórum Urbano da Amazônia Ocidental – FAOC
Grupo Lambda LGBT Brasil
Habitat para a Humanidade
Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual
Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE
Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM
Instituto de Defensores de Direitos Humanos – DDH
Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais – PÓLIS
Instituto Edson Néris
Instituto Práxis de Direitos Humanos
Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC
Justiça Global
Mães de Maio
Movimento da Juventude Andreense – MJA
Movimento em Defesa da Economia Nacional – MODECOM
Movimento Nacional de Luta pela Moradia – MNLM
Movimento Passe Livre – MPL
Núcleo de Direito à Cidade – USP
Pastoral Carcerária Nacional
Rede 2 de Outubro
Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicador@s – RENAJOC
Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – RENAP
Rede Observatório das Metrópoles
Serviço Franciscano de Solidariedade – SEFRAS
Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE
Terra de Direitos
Tribunal Popular
União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os da Classe Trabalhadora – UNEAFRO
União Nacional por Moradia Popular – UNMP
Viração Educomunicação

...

Nota: Não fui capaz de encontrar a fonte original do manifesto. Se alguém o tiver peço que me mande. Obrigado

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Duas Esquerdas e Uma Copa



Geralmente as tragédias e violações de direitos humanos provindas dos interesses do capital privado e multinacional é motivo de união das esquerdas. A Copa das Confederações é uma exceção. Ela se tornou motivo de polarização entre duas “concepções” da prática política que deveria caracterizar a esquerda. Ou talvez “concepções” não englobe o todo das diferenças. Antes de averiguarmos a posição de cada um, vamos entender bem o caso da Copa:

Os problemas que a Copa acarretam vão muito além do desperdício do dinheiro público (que não deixa de ser um problema real). Pessoas estão sendo removidas de suas casas num ato de higienização das cidades, lançado o povo das periferias às ruas e destruindo casas, favelas e barracos. A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP) estimou que o número de pessoas despejadas deva atingir aproximadamente 250 mil. A polícia está realizando as remoções de maneira truculenta, sobretudo aquelas comunidades que tentam resistir. Veja o vídeo abaixo:


Ano passado foi sancionada a Lei Geral da Copa que “flexibiliza” a legislação. Por exemplo: ela cria uma zona na qual somente patrocinadores oficiais poderão comercializar produtos, o que impedirá a participação dos milhares de comerciantes ambulantes que não poderão aproveitar os benefícios que o turismo poderia oferecer – o lucro deverá ser monopólio dos grandes! Também aqueles que usarem símbolos relacionados ao evento para fins comerciais poderão pagar uma pena de três meses a um ano. “Isto significa que palavras como ‘Mundial’, ‘Copa’, ‘Brasil’, ‘Canarinho’, entre tantos outros, ficam nas mãos da FIFA e de suas empresas parceiras para exploração comercial exclusiva” (fonte). A Lei Geral da Copa concede à FIFA e a suas empresas parceiras isenção total de todos os impostos brasileiros, o que deverá lhe dar uma economia de 1 bilhão. Estima-se que o Megaevento (que segundo a própria FIFA não tem fins lucrativos) deverá render 10 bilhões de reais (idem).

Para controlar as ondas de protesto, o governo vai aumentar a repressão. O governo federal já gastou quase 50 milhões de reais em armamento “não” letal, como granadas, armas de choque elétrico e balas de borracha, e uma tropa de choque especial também foi criada para atuar nas cidades-sede da Copa. Em São Paulo a “bem preparada” polícia militar também criou um batalhão especial para defender a Copa. E o mais assombroso é o direito concedido às forças armadas para reprimir as manifestações com o manual do Ministério da Defesa intitulado “Garantia da Lei e da Ordem”, que já foi até apelidado de “ato institucional n.1 da era petista”.

Com todos estes problemas, com as remoções no topo, os movimentos sociais fizeram o obvio: foram para a rua protestar, atrapalhando e dificultando a construção do evento e demonstrando sua revolta e indignação. Foram surpreendidos, no entanto, sendo acusados por parte da esquerda de... serem de direita, de estarem lutando contra o Brasil, isso quando não de bandidos e terroristas. 

Há algo paradoxal acontecendo: a mídia e a direita em geral, são contra esses protestos. Paralelamente há uma parte da direita, mas sobretudo uma juventude despolitizada, que participa dos protestos. Neste casos, eles encontraram uma maneira de promover a baderna com o intuito de prejudicar a imagem do governo e fragilizar o PT. Aquela esquerda que defende a Copa, ou ao menos que é hora de parar os protestos e deixá-la acontecer em paz, estão sendo rotulados, pela outra esquerda, de “governistas”, pois são em geral os simpatizantes do PT e/ou temerosos com o rumo dos protestos. Estes “governistas” estão generalizando a ação de todos os protestos, desqualificando-os chamando-os “coxinhas”, quando não “fascistas”, etc e até mesmo, em alguns casos, justificando e aprovando a repressão!

Eles sabem o desgaste que isso vai acarretar ao PT. E, tentando compreender esta posição pela perspectiva mais à esquerda possível, podemos admitir que se o PT não vencer as eleições, vencerá um partido mais à direita, e que talvez descontinue as conquistas do governo petista, sejam estas conquistas pequenas ou grandes, sejam necessárias ou somente insuficientes – não cabe discutir isso nesse texto. Existe o fato de que não foi a Dilma nem o PT quem decidiu que a copa seria aqui e, sem dúvida nenhum deles teria força pra impedi-la. Enfim, a copa foi um desastre, inclusive para o PT, pois ele provavelmente nunca mais será o mesmo depois dessa copa.

A tecla que esses “governistas” mais têm tocado é a respeito da violência das manifestações. De rebeldes e confrontadores da ordem existente, passaram denunciar o vandalismo e exigir ordem, muitas vezes usando argumentos que tradicionalmente pertenceram à direita. A já em moda rejeição aos Black Blocs (leia um texto sobre isso aqui) tomaram proporções ainda não vistas e os casos do fusca incendiado e da morte do cinegrafista da Band só ajudaram a fomentar o ódio geral pelos manifestantes.

É preciso esclarecer algumas coisas. Em primeiro lugar aqueles que generalizam alegando que os protestos estão sendo articulados pela direita estão enganados ou mentindo. Como disse Igor Ojeda, “No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda”. Há gente de direita protestando? Há. Mas há gente de esquerda que não está fazendo mais do que sua obrigação de cidadão. E essas pessoas não são todas dos Black Blocs, nem dos Anonymous, nem do PSTU, nem de uma coisa só e toda essa generalização é inventada e reproduzida para confundir e convencer as pessoas através de um discurso difamatório. 

Em segundo lugar o caso do fusca e do rojão na cabeça do cinegrafista foram sim casos isolados e nunca caracterizaram as ações dos Black Blocs ou dessas manifestações em geral. Mesmo que tenha sido membros dos Black Blocs que o fizeram (se é que foram) foram erros, os responsáveis devem pagar, mas é desonesto desqualificar os protestos em função destes casos. Os protestos são legítimos em nome das violações que foram apontadas acima e a violência policial tem deixado muito mais vítimas, como está sendo o caso de tantos jornalistas e ativistas baleados – porque não deslegitimam a própria Copa ou o governo em função dessa violência policial?

Voltemos à Copa em si. Os interesses da FIFA estão acima da população, pra você? Será que vale tudo pra apoiar o PT? Será que os valores da esquerda são negociáveis? Será que compensa manter o governo que você defende à custa dos direitos humanos, do povo pobre nas favelas? Se o PSDB estivesse no poder, os petistas estariam na rua, denunciando essas violações e admitindo que a desordem e vandalismos  provindo dos protestos eram inevitáveis, pois a luta era justa. Sejamos francos, por favor.

Quando apresentei o vídeo acima a estes “governistas”, alguns ficaram até mesmo embaraçados, mas admitiram que haviam protestos justos e protestos injustos, e que sua luta era contra os protestos injustos. Mas será mesmo? Por que ficar apenas bradando contra os “coxinhas” nas manifestações, quando os protestos são justos e legítimos, e quando o Estado e a FIFA estão destruindo nosso patrimônio e nossa soberania, quando estão despejando pobres e reprimindo a população, criminalizando os movimentos sociais, etc? Agora são vocês que exigem que aceitemos calados, pois trata-se de uma mal necessário, que não pode ser evitado? O que vocês mesmos, que votavam no PT nos anos 80, diriam desse tipo de discurso?

Eu sei que nem toda ação realizada nas manifestações é justa, e até pode ser que a esta altura do campeonato os protestos não vão impedir a copa de acontecer e talvez nem sejam produtivos, e também me preocupa essa violência, sobretudo aquela que se abate sobro lado mais fraco. Mas faz parte da dignidade humana não aceitar calado estas violações, e que deve-se mostrar para os violadores que não deixaremos barato e, se possível, que pensem duas vezes antes de cometer esse tipo de injustiça. Enfim, temos que mostrar que o povo brasileiro tem voz e que é capaz de reagir. De que lado você está?