segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ao Sr. Antissocialista das Críticas Simplórias


Eu respeito a sua opinião. Respeito o seu direito de pensar o que pensa e de dizer isso. E já que você está expondo seu ponto de vista, gostaria de expor o meu, uma vez que você zela pela liberdade de expressão e certamente reconhece a importância do diálogo.

Você tem todo o direito de ser contra o socialismo. Claro. Mas quando criticamos algo, devemos conhecer minimamente o objeto da crítica. Temos que conhecer os dois lados da moeda, ter uma visão do todo e evitar sermos maniqueístas, ou podemos acabar revelando que nosso ponto de vista não passa de um preconceito.

Compartilhar e reproduzir frases como àquelas do Winston Churchill, dizendo que quem é socialista depois dos quarenta “não tem cérebro” ou que o socialismo é o “credo da ignorância” e o “evangelho da inveja” tem um pequeno problema: isso não é um crítica, é uma ofensa, tão vazia quanto falsa e levanta sérias dúvidas sobre o seu entendimento sobre política. Sim, isto lhe faz parecer simplório. Veja bem, existem doutores e intelectuais de todas as áreas do conhecimento que são de direita e de esquerda; existem historiadores, economistas e filósofos defensores do capitalismo e do socialismo. Defender uma coisa ou outra não faz ninguém ignorante, a questão é COMO esta pessoa defende e entende sua opinião. Se ela defende seu ponto de visto caluniando os outros pontos de vista, aí sim temos uma pista de ignorância.

O que? Socialistas de Rolex? Esquerda caviar? Pessoas criticando o capitalismo em seus Macs e iPhones? Meu amigo, você demonstra ignorar mesmo o significado de ser socialista. Os socialistas não são avessos à tecnologia. Pelo contrário: lembre-se de que a URSS foi o primeiro país a mandar alguém ao espaço. E ser de esquerda não é fazer voto de pobreza: não somos franciscanos, tampouco a maioria de nós acredita que é possível acabar com o sistema capitalista através do boicote. Não temos problemas em possuir bens materiais, ao contrário, queremos que todos tenham acesso a estes bens, nós somos contrários à concentração de renda e da terra para que ninguém fique sem. Não temos problema em pagar mais caro numa marca quando o produto tem mais qualidade, apenas não ostentamos: somos contra o consumismo, não contra o consumo; e não defendemos a socialização de toda propriedade privada, mas apenas a dos meios de produção.

Você compartilha aquele texto do professor que nunca havia reprovado nenhum aluno? Aquela suposta experiência socialista? Meu amigo, aquilo lá é balela. Você tem todo direito de ser contra o socialismo, mas aquilo á não é socialismo. Não tem NADA a ver com o socialismo. No socialismo a riqueza não é repartida para todo o povo igualmente, independente de quem trabalhe ou deixe de trabalhar, nem na teoria, nem na prática. No socialismo, se ganha de acordo com seu trabalho. E mais: procura se garantir trabalho para todos. Tampouco o capitalismo garante que ganhe mais quem se esforça mais. No capitalismo, as oportunidades são desiguais, e nem todos têm chance, portanto nada se parece menos com ele do que a sala de aula descrita no texto antes do hipotético professor fazer a experiência. Não acreditamos na “meritocracia” num mundo onde alguns nascem moradores de rua enquanto outros nascem com a vida ganha; nem onde alguns trabalham pesado a vida toda sem nunca ascender enquanto outros lucram apenas investindo suas fortunas em ações, em especulação imobiliária, etc, etc, etc. Claro que você tem o direito de discordar de tudo isso, mas não, aquele texto não fala sobre socialismo.

O socialismo quer acabar com a religião? Você sabia que na URSS a religião mais difundida era o cristianismo, através da Igreja Ortodoxa Russa? E sabia que em Cuba também existem cristãos? No entanto, nessa ilha caribenha, a religião mais difundida é a Santeria, religião de matriz africana. Sinto te desapontar, mas cristãos não foram perseguidos, pelo menos não pela razão de serem cristãos.

O que está dizendo? O socialismo não funciona? Eu te pergunto, o capitalismo funciona? Bem, se ainda temos ele aí de alguma forma funciona. Mas de que forma? Vou te dar um exemplo: há alguns anos atrás tivemos uma famosa crise europeia, causada pelos banqueiros, o que quase os levou à bancarrota. Os governos europeus impuseram as tais “medidas de austeridade”, cortando serviços básicos, fazendo assim o povo pagar a conta. É assim que ele funciona: crise após crise o povo paga a conta, donos do capital e governos se unem para salvar suas fortunas em detrimento dos pobres. Estabilidade, apenas em breves momentos. O socialismo funcionou por certos períodos, e se entraram em colapso, isso também se deve ao fato de que o seu inimigo (o capitalismo) foi mais forte. Mais forte não quer dizer melhor, mais justo ou mais eficiente, quer dizer mais forte militar e ideologicamente. Isso nós socialistas temos que admitir.

O socialismo matou milhões? Deixa eu te contar uma coisa. Na Europa feudal haviam pessoas que lutaram para que o capitalismo fosse uma realidade. Interessava-lhes o livre-mercado porque não gozavam das vantagens da aristocracia feudal. Isso levou à guerra, à revoluções, e muita gente morreu. As mortes não pararam: era preciso manter o poder conquistado. E ele logo se expandiu: séculos VIII e XIX foram marcados pelo saque e pela pilhagem da África, Ásia e Américas motivados por um mercado em expansão. Além disso, desde aquela época até hoje, o capitalismo vem permitindo a concentração de renda que leva à miséria, à falta de moradia, de saúde, educação, etc. Mas muitos crimes do capitalismo não são personificados: parece que ninguém teve culpa. Milhões de pessoas morrem na miséria anonimamente, e atribui-se a culpa à elas mesmas - não se esforçaram o suficiente (sic). E as guerras continuam, basta ver o que os EUA vão fazer no Oriente Médio, e com certeza NÃO é combater o terrorismo. Assim, as mortes do socialismo não deixam nada à dever com as mortes do capitalismo. Tem mais. Se houve violência nos governos socialistas ou nas tentativas de serem construídos, é porque houve guerra. A guerra foi feita por ambos os lados. E o pensamento maniqueísta costuma por todos os saldos na conta do inimigo.

O que foi agora? No socialismo não há democracia? O povo não tem direitos nem representatividade? O que o senhor entende por democracia? Tem um texto sobre democracia aqui. Mas falando nisso, não só de democracia viveu o capitalismo (raramente, na verdade). Com a revolução industrial, o proletariado europeu, ainda sem direitos trabalhistas, sofreu uma verdadeira escravidão em condições de trabalho subumanas. Os trabalhadores tiveram que lutar muito por direitos básicos – e foi desta luta que nasceu o socialismo. No capitalismo também houveram ditadores, tão sanguinários quanto quaisquer outros, que não se costuma levar em consideração. Mas, compreendendo que a democracia é um processo e não um regime (você compreende isso?), assim como no capitalismo a democracia acontece também no socialismo. Foi sob a representação do povo que se conquistou direitos básicos, moradia, educação e saúde para muitos que deles estavam desprovidos anteriormente, sob o capitalismo. A propaganda anticomunista omite tudo isso, criando uma campanha difamatória. Não sou louco de achar que é tudo mil maravilhas também, mas, de acordo com o que pesquisei, houveram experiências bem interessantes.

Eu sei que as coisas que você lê dizem o oposto do que eu estou te dizendo. Não podemos, no entanto, limitarmo-nos sempre às mesmas fontes: precisamos saber o que dizem os que estão do lado de lá; é a única maneira de não nos isolarmos numa bolha de discursos prontos. Você sabe que a História, como nos é contada, é a história dos vencedores. É também a História vista por aqueles que se beneficiam dessa visão; assim como cada país em guerra pinta seus inimigos como bárbaros, assim fazem os adeptos de cada regime, de cada ideologia e mesmo de cada classe. Não acredite em tudo que lê, muito dessa leitura é interessada, é propaganda ideológica, mesmo que não pareça, e mesmo quando defende aquilo que você acredita. Nós sabemos que este tipo de propaganda barata existe dos dois lados, tanto do capitalismo quanto do socialismo, mas convêm termos cautela e não sairmos reproduzindo um discurso vazio, ainda que popular, simplório.