quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Estado do Bem Estar Social e Sua Ruína


O projeto do Estado de bem estar social nasce na primeira metade do século passado e tinha como objetivo (ao menos em teoria) garantir que a massa desempregada e marginalizada fosse protegida e recuperada, integrada. Esta massa não ‘era’, portanto, marginal, ela ‘estava’ marginal. Com assistências do Estado através da saúde, educação, moradia, etc. os menos favorecidos da sociedade teriam as oportunidades de viverem dignamente enquanto utilizavam seus próprios recursos para sair daquela situação. Esta assistência do governo deveria ser, portanto, provisória.

Esta concepção de Estado foi um misto entre as conquistas dos movimentos sociais que conseguiram impor condições mínimas de direitos à classe trabalhadora e, por outro lado, um concessão das elites que dominavam (e não deixaram de nominar) o Estado, pois naquela época surgiam os primeiros Estados socialistas, e estes representavam uma alternativa aos trabalhadores. Era preciso criar um fundo público para garantir certos direitos ao povo antes que este mesmo povo resolvesse sair por aí fazendo revoluções.

Foi baseado no Estado de Bem Estar Social que os países na época chamados de “primeiro mundo” viveram seus “anos de ouro”, os anos 60. Enquanto o comunismo internacional era considerado uma ameaça, os países capitalistas demonstravam sua face mais benigna (ao menos para os povos dos países desenvolvidos) e a social-democracia era muito bem aceita.

O projeto fracassou, porém, e por duas razões principais. a primeira é que o sistema capitalista não pode dar conta de sanar suas próprias contradições, pois é sua existência mesmo que as produz. O mercado capitalista leva à concentração, e faz crescer assim o número de pobres de marginalizados, falidos e destituídos. Como disse Galeano, é uma viagem com mais náufragos do que passageiros. Isso fez com que cada vez mais pessoas necessitassem utilizar os recursos oferecidos pelo Estado, como seguro desemprego. E, não podendo emancipar-se, o resto da população contribuinte começou a ver esta condição como parasitismo: ele estava trabalhando para sustentar uma massa de desocupados. Em outras palavras, as vítimas começaram a ser vistas como os culpados das desigualdades do seu próprio infortúnio.

Em segundo foi o fato de que, com a dissolução da União Soviética o socialismo perdeu muito de sua credibilidade. Como parou de representar uma ameaça (na externa, de invasão ou guerra, mas interna, de seduzir o povo) as elites já não necessitavam mais manter aquele fundo público, e passou à tomá-lo pouco a pouco.

Este foi o terreno propício para o neoliberalismo, que foi implantado nos EUA com Richard Nixon (mas já antes em outros países). Este plano econômico se baseia na ideia de que o livre-comércio equilibra a economia e promove igualdade de condições (ideia comprovadamente falsa há aproximadamente 200 anos e jamais observada na pratica em parte alguma, que desde o século XIII era uma utopia, mas que desde o XIX não pode ser visto senão como um mito). As ações exigidas foram a privatização compulsória e a desregulamentação do mercado. Os resultados vieram rápido: perda dos direitos trabalhistas, entre outros e o aumento violento no número de pobres e falidos. Uma verdadeira catástrofe, mas não para os ricos: eles puderam concentrar ainda mais renda.

“Nos EUA, antes de Regan, os diretores executivos ganhavam 43 vezes mais que o trabalhador médio. Em 2005 ganham 400 vezes mais.” (CUORON, Afornso e KLEIN, Naomi. Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo do Desastre. Canadá, 2009, 82 min. Cor. 17min. 37 seg.)

Conjuntamente a isto cresceu a criminalidade, que dos anos setenta para cá só tem aumentado. Quer dizer que se o Estado de Bem Estar Social não era eficaz, pode-se dizer que era “menos pior”. E os investimentos que antes eram utilizados para auxiliar o povo, agora é utilizado para aumentar a repressão e o isolamento dos bairros considerados perigosos, nas cadeias, no aparato policial, etc. Para falar a verdade, hoje se gasta mais na repressão do que se gastava na assistência social. Os Estados Unidos é o pais com a maior população carcerária do mundo, com o maior número de sem tetos e altíssimos índices de violência e criminalidade.

Apesar dos efeitos serem precisamente opostos ao desejado, o grosso da classe média e alta, não entendo de economia e não sendo capaz de enxergar resultados em longo prazo, exige sempre o caminho da culpabilização da vítima, enxergando os males sociais como uma questão moral ou como se tivessem origens em atos individuais, e se opõe veementemente aos projetos de socialdemocracia, mesmo que tímidas. Governadores nos EUA com projetos sociais são “difamados” sob acusação de socialismo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mentiras da Ditadura 1: Houve Uma Ameaça Comunista?

A ameaça comunista era o pretexto perfeito para a época e integrava o ideal heroico-romântico do nacionalismo militarista

Com a criação da Comissão da Verdade veio a tona toda uma discussão sobre a ditadura militar e, surpreendentemente, toda uma defesa do regime que supostamente teria trazido mais benefícios do que malefícios ao país. É interessante o fato de que os defensores desta tese são contrários a Comissão, preferindo que os fatos fiquem omissos, como se temessem a descoberta de sujeiras das quais juram não existir e só podem acreditar nisso negando a investigação dos casos. Só este posicionamento lança sérias dúvidas à tal conduta. Mas não reduziremos nosso argumento a isso, vamos pressupor que, ainda assim, os defensores da ditadura tem razões para dizer o que dizem.

Pois bem, este pretende ser o primeiro de uma série de textos que demonstram que as argumentações mais comuns em defesa do regime de 64 não se sustentam. O presente texto se refere ao seu pretexto mais utilizado: a de que o golpe foi necessário para proteger o país do comunismo. Os comunistas estavam para dar um golpe de Estado e as Forças Armadas tiveram que tomar o poder até poderem neutralizar as "forças da subversão". Uma mentira esdrúxula. Mas ao mesmo tempo que foi uma mentira, foi uma verdade burra. Verdade burra para alguns, pois é muito comum entre os membros da extrema direita achar que tudo que mostra qualquer sinal de envolvimento com a esquerda é comunismo. Muitos acham que qualquer sindicato, direito trabalhista ou reformazinha de base é comunismo. As principais mentes do golpe, porém, não estavam tão iludidas: elas sabiam perfeitamente que a "ameaça comunista" era apenas um pretexto.

O fato é que o presidente da época, João Goulart, queria fazer uma pequena parte da reforma agrária, retirando terras improdutivas da oligarquia rural. Isso permitiria o país desenvolver-se como país capitalista mesmo (e pretendo demonstrar isso em outro texto, logo). Os latifundiários, no entanto, pensavam diferente. Eles são umas das forças mais poderosas no país desde sempre, e reagiram mais que depressa. Outra coisa que desagradara as Forças Armadas foi a Revolta dos Marinheiros em 64 cujo líder era comunista e defensor das reformas de base de Goulart. Tudo que os marinheiros exigiam, no entanto, eram melhores condições básicas para os marinheiros. Jango os apoiou e concedeu perdão pelo motim.

Não havia, entretanto, a menor condição para os comunistas tomarem o poder. Nem que eles quisessem: o partido não tinha poder militar e financeiro, nem adesão de gente suficiente para isso, e sabia muito bem. É verdade que, mais tarde, quando os comunistas foram obrigados à seguir para a clandestinidade, grupos armados tentaram aproveitar a fama de ameaça ao regime para tentar transformar a mentira em realidade, ou seja, atrair gente suficiente para depor o governo militar. Jamais funcionou. A ameaça comunista era o melhor dos pretextos da época pela existência da guerra fria, assim como hoje o é a corrupção no Brasil ou o terrorismo nos EUA, por exemplo. As razões do golpe eram outras: impedir as reformas de cunho popular, por tímidas que fossem, e restabelecer os poderes nas mãos das elites, isso incluía o capital estrangeiro que temia um desenvolvimento autônomo da indústria nacional, coisa que a faria perder mercados. O golpe teve incentivo financeiro e apoio espiritual dos EUA. Empresas estrangeiras como a Ford, a Shell e a Volkswagen, entre outras, ofereceram seus recursos. Em outra ocasião explicarei melhor as razões do golpe.

O próprio Getúlio Vargas, quando deu o golpe de Estado, utilizou o mesmo pretexto, baseando-se no famoso "documento Cohen", suposto documento comunista do qual eles planejavam tomar o poder. Mais tarde o general Mourão Filho, integralista, assumiu a autoria da carta, comprovando, portanto, ser uma falsificação. Para se ter uma ideia, o mesmo general foi um dos arquitetos do golpe de 64, e o mesmo pretexto funcionou duas vezes.

Para justificar que o comunismo era uma ameaça, perseguiu-se os comunistas e, empurrando-os para a clandestinidade e a luta armada. Estes indivíduos passaram a ser perseguidos e, consequentemente, excluídos das suas atividades "normais", como de seus empregos. Muitas das ações clandestinas tinham o objetivo de gerar subsistência para o grupo. Os militares foram mais fortes, no entanto, e quando acabaram comunistas de verdade, começaram a inventar comunistas novos. Chegaram a prender e torturar inúmeras pessoas, entre as quais artistas, intelectuais, sindicalistas, ativistas ou meros simpatizantes para justificar sua mentira.

A mentira saiu cara de muitas maneiras. Não só pela ignorância generalizada por si própria gerada, e pela censura aos meios de comunicação, como a prisão de mais de 60 mil pessoas por todo país ao longo dos 21 anos de ditadura, 30 mil torturados, 10 mil exilados e 400 mortos e desaparecidos. Bem, isso é o que o governo admite, o que significa que o número foi, sem dúvida, maior. A tortura não fora, efetivamente, necessária. Ela foi uma demonstração de ignorância e brutalidade de um organização cuja disciplina ensina a não pensar, mas apenas obedecer sem questionar a hierarquia, mesmo que esta hierarquia, na sociedade civil, seja determinada por razões econômicas.

General Castelo Branco, o primeiro ditador do regime de 64

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos? - Eduardo Galeano


[Este texto foi escrito por Eduardo Galeano sobre a operação Chumbo Fundido de 2008. É uma tristeza imensa ver que nada mudou de lá para cá]

Para se justificar, o terrorismo do Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Sequer tem o direito de escolher seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são punidos. Gaza está sendo punida. Converteu-se em uma ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou de forma justa as eleições no ano de 2006. Algo semelhante ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista ganhou as eleições em El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e desde então viveram submetidos às ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência, os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com pouca pontaria sobre as terras que eram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à beira da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficiente guerra de extermínio vem negando, há anos, o direito à existência da Palestina.

Pouca Palestina resta. Passo a passo, Israel a está exterminando do mapa.

Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão consertando a fronteira. As balas consagram os restos mortais, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que esta invadisse à Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que este invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina e, os almoços seguem. A comilança se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico gerado pelos palestinos na espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, e que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que zomba do direito internacional, e é também o único país que legalizou a tortura dos prisioneiros.

Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não poderia bombardear impunemente o País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico poderia devastar a Irlanda para liquidar ao IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou esse sinal verde provêm da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional dos seus servos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam-se os milhares de mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humando, que a indústria militar está testando com êxito nesta operação de limpeza étnica.

E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. A cada cem palestinos mortos, há um israelense.

Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos chamam a acreditar que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos chamam a crer que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que devastou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, existe?

É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os EUA se auto denominam quando fazem teatro?

Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial aparece mais uma vez. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações bombásticas, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam suas mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma que outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século atrás essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti semitas.

Eles estão pagando, com sangue, uma conta alheia

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para Melhor Compreender a Política 2: Quem Manda no Governo?


O que você acha que o(a) presidente deveria fazer? Será que ele(a) já teve esta ideia? Será que depende só da vontade dele(a)? As pessoas estão sempre querendo que os governantes tomem determinadas atitudes, e nada mais justo, foi para isso que votaram neles. Mas quando este governante não toma as atitudes esperadas, pode-se arranjar explicações para isso. A mais comum é atribuir as ações ou omissões à corrupção. O político em questão é corrupto e só assumiu o cargo pelo dinheiro. Não faz o que devia porque não quer. Outra explicação possível é a falta de competência. Uma terceira ainda seria a de que o governante tem outra orientação política do que o esperado, e que o que ele faz simplesmente corresponde às suas convicções. Por esta razão muitos esquerdistas passaram a acreditar que o governo do PT é de direita ao mesmo tempo que os direitistas o consideram como sendo de esquerda. Esta, assim como as explicações anteriores, são perfeitamente aceitáveis, mas não isoladamente. As vezes o problema não é nem um dos apontados até agora.

É preciso ter em mente, para compreender a questão, duas coisas que geralmente escapam das discussões: (1) O governo está cheio de contradições e (2) o governo está inserido num contexto econômico, e neste contexto não há nada que tenha mais poder do que o dinheiro.

(1) Num mesmo governo existem diversas pessoas, entre as quais corruptas e honestas, competentes e incompetentes e com diferentes convicções e orientações políticas. Como um presidente não decide nada sozinho, as políticas dominantes serão, necessariamente, aquelas que espelham a maioria dentro do governo. Existem, é claro, poderes diferentes relativos aos cargos, mas qualquer político pode ficar imobilizado quando não consegue um número suficiente de pessoas que representem os mesmos interesses que ele representa. Jânio Quadros renunciou a presidência porque poderes de interesses contrários aos dele dentro do Estado demonstraram-se superiores; não mais justos ou melhores, mas mais fortes econômica e militarmente.

Isso obriga aos políticos a darem concessões enquanto pedem concessões,  como uma troca de favores arranjada entre as forças existentes. A concessão dada pode ser a aprovação de uma lei que beneficia os interesses dos políticos aos quais se propõe uma outra lei, ou pode ser propina, dinheiro, e esta pode ser, muitas vezes, a única forma de conseguir a cooperação: comprando-a.

Se nós supormos a situação de um presidente que seja contrário aos interesses dominantes no governo, (e lembremos que o fato do interesse ser dominante no governo não significa que o seja entre o povo) imaginaríamos que ele teria que fazer concessões muitas vezes indo contra o que ele mesmo acredita, além de fazer alianças com grupos que seriam, teoricamente, seus inimigos naturais. É como num jogo de xadrez, sacrifica-se peças para devorar outras peças. E é um jogo muito complexo e ardiloso, diga-se de passagem. Mas é assim que funciona a máquina burocrática do nosso Estado.

(2) Como se isso tudo já não bastasse, existe ainda um fator mais poderoso que os interesses dentro do senado, e estamos falando de quem manda no governo. Na maioria dos países (mas não em todos), inclusive no nosso, existem setores da sociedade que tem poder suficiente para derrubar governos. São eles o capital internacional, com suas empresas transnacionais, bancos e órgãos internacionais de controle de crédito; a nossa oligarquia rural, que são latifundiários que têm extensões de terra gigantescas; o capital nacional, subserviente ao internacional e, ao lado destes, a grande mídia e o exército. Eles estão unidos em metas econômicas socialmente irresponsáveis, mas muito lucrativas. Se um governo não atende aos seus interesses, eles o tiram de lá. E mesmo atendendo aos seus interesses, mas não tanto quanto poderia, eles realizam ataques violentos contra este governo, primeiro de natureza moral: eles o denigrem perante a opinião pública. Se isso não adiantar, eles passam às sabotagens. Quando necessário, dão o famoso golpe de Estado, geralmente chamando-o pelo nome de "revolução".

São tão poderosas as influencias externas (Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Agência para o Desenvolvimento Internacional, etc; somadas às empresas transnacionais), que governos foram depostos por causa deles. A Guatemala nos anos 50 teve seu presidente deposto porque propôs retirar terras da estadunidense United Fruit CO., implantando-se, inclusive, uma ditadura militar apoiada pelo país donde a empresa viera. Os Estados Unidos também impôs embargos comerciais em países como o Chile de 1970 e 1973, promovendo um caos econômico e criando assim condições para depor Allende. O Banco Mundial e a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) decidem tudo sobre a educação no nosso país, e o governo federal assina embaixo senão eles cortam uma verba destinada a isso. A única maneira de um governo contrário a tais interesses ser bem sucedido é tendo o apoio da maior parte do povo, e precisa ser um povo disposto a sair na rua e brigar.

Então, a próxima vez que você for tomar alguma decisão pelo presidente, não se esqueça de levar essas informações em consideração.

sábado, 17 de novembro de 2012

Porque Mais Violência na Palestina?


Israel lançou uma grande ofensiva contra palestinos nesta quarta (12) matando o comandante militar do Hamas, Ahmed Al-Jaabari em mais de 20 ataques aéreos israelenses na Faixa de Gaza. Pelo menos 6 palestinos morreram neste dia, além de dezenas de feridos. Até ontem (16)  bombardeado mais de 200 alvos na Faixa de Gaza, deixando parte da população da região sem energia. Os ataques já resultaram em, pelo menos, 20 palestinos mortos e cerca de 200 feridos, entre os quais diversos civis inocentes,  incluindo mulheres e crianças.

O embaixador de Israel no Brasil, Rafael Eldad, afirmou que o exército israelense só pararia os ataques quando o Hamas se comprometessem a encerrar seus ataques à Israel. O ataque seria, de acordo com Israel, uma resposta à ataques de três dias anteriores à israelenses.


Os ataques do dia 12 ocorrem poucas horas depois de o Egito ter anunciado a conclusão de um cessar-fogo entre Israel e líderes palestinos. O suposto acordo foi negociado depois de uma nova onda de violência na região, com o disparo de mais de cem mísseis nos últimos cinco dias.

O primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu aproveitou a ocasião para adiantar as eleições, já que atacar outro povo é uma estratégia muito comum para unir o próprio em torno de um chefe e contra um inimigo comum, assim como fez Bismark contra o liberalismo francês e Hitler contra o judaísmo. Uma estratégia, então, para permanecer no poder.

Foram ordenadas a mobilização de 30.000 reservistas. O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, assegurou que "isto é só o começo". E assim propõe-se repetir a operação Chumbo Fundido, que em 2008 deixou mais de 1.400 palestinos mortos.

Os Estados Unidos pressiona o Egito para que use a sua influência sobre o Hamas para pôr fim ao confronto, além de defender o direito de Israel em se defender. O Hamas também está pedindo ajuda para o Egito e os demais povos árabes.

Para quem não sabe o sionismo foi um projeto que visava reunir o "povo judeu" sob uma mesma nação após a perseguição nazista. O local escolhido foi a Palestina, por ser o local em que foram dispersados pela opressão do Império Romano milênios antes. Acontece que não existe um "povo judeu", o que existiu foi um povo hebreu que sofreu sua diáspora e uma religião judaica. A intenção de criar um Estado judeu foi uma estratégia que viria fazer lucrar alguns homens poderosos, judeus e não judeus. 

Para que a estratégia funcionasse foi necessário limpar a terra dos palestinos numa guerra sangrenta que até hoje parece longe de terminar, e o tratamento dado aos palestinos pelos israelenses é terrivelmente semelhante ao da Alemanha nazista aos judeus. Os territórios palestinos, cada vez menores e mais miseráveis, são cercados por enormes muros e sofrem terríveis privações. 

O Hamas, grupo islâmico de resistência, é o que o povo palestino tem para se defender, e caracteriza-se pelo fundamentalismo religioso e o terrorismo como estratégia. Dificilmente poderíamos esperar menos violência dos palestinos enquanto Israel aniquila o povo numa guerra injusta e covarde, além de constituir o braço armado dos EUA  no Oriente Médio, onde há todo um mercado para explorar e agregar em sua dominação econômica.




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Europa em Chamas

Madrid, Espanha

Ontem, 14 de Fevereiro de 2012, a Europa ferveu. O Sul do continente organizou, através dos sindicatos, Greve Geral. Houve grande participação popular da península Ibérica com milhares de pessoas que saíram às ruas nas principais cidades para protestar contra as medidas de austeridade fiscal aplicadas por seus governos. Foram registradas dezenas de prisões por conta de confrontos entre policiais e manifestantes. Só até as 11 da Manhã foram presos, na Espanha, 62 pessoas. Em Compostela houve uma manifestação com cerca de 5.000 pessoas, segundo algumas fontes.

De acordo com UGT (União Geral dos Trabalhadores) e CC OO (Confederação Sindical de Comissões Operárias), principais sindicatos que organizaram a paralisação, o balanço das dez primeiras horas de greve contabiliza participação massiva nos setores da indústria siderúrgica, automobilística, química e construção civil. As associações afirmam que houve paralisação de quase 100% nos portos (a exceção de 90% em Bilbao e 50% em Melilla), 90% dos aeroportos e no transporte rodoviário e ferroviário. A paralisação na indústria foi quase total.

Galiza
O governo da Espanha falou em "normalidade" sobre a situação do país, e enquanto as organizações trabalhistas alegavam que mais de 80% do operariado havia aderido à greve, as confederações empresariais disseram que havia sido apenas 12%.

Em diversos outros países também houveram agitos, em especial Grécia e Bélgica. Na capital belga, Bruxelas, sede das instituições da União Europeia, mais de mil pessoas, segundo a polícia local, se manifestaram na frente da sede da Comissão Europeia. Ruas de Paris também reuniram manifestantes, e até na Irlanda pouco mais de 50 pessoas se reuniram em solidariedade às jornadas de lutas.

Portugal
Essas movimentações no continente se dão pelas medidas de austeridade impostas pelos países para salvar a riqueza dos financiadores que causaram a crise econômica. Estas medidas cortam os gastos dos servições públicos e básicos, além de condenar milhares de pessoas ao desemprego. A crise se dá por causa de contradições internas da acumulação de capital, e neste caso específico, que é marca própria do nosso tempo, o capital financeiro. Desde os anos 70 os trabalhadores vem perdendo direitos com a desregulamentação neoliberal, e os patrões estiveram transportando suas indústrias para os países "em desenvolvimento". Os patrões passaram a ter acesso a toda mão de obra mundial. As perdas de direitos fizeram a concentração da renda aumentar e os salários vieram caindo vertiginosamente.

Se os trabalhadores estavam recebendo cada vez menos, como poderiam comprar os produtos que os próprios patrões vendiam? De onde viria seu lucro? A solução foi encontrada pelos financiadores nos cartões de crédito: expandindo a economia de crédito, as pessoas poderiam comprar. Isso fez com que a população se endividasse cada vez mais, e as famílias estadunidenses e inglesas, por exemplo, triplicaram suas dívidas nos últimos 30 anos.

Isso, se você está acompanhando o raciocínio, não parece ser uma medida muito responsável, pois não resolveu o problema, mas apenas o adiou para mais tarde, criando um novo problema ainda maior. Mas acontece que as medidas para salvar os financiadores tornam os financiadores cada vez mais poderosos. Isso faz afundar a industria e países inteiros, mas estas crises fazem aumentar a concentração nas mãos dos financiadores. Mais milionários surgem durante os períodos de crise, e isso significa que mais pessoas são lançadas à miséria. Agora a União Européia quer salvar os financiadores fazendo com que o povo pague as suas contas.

Compostela, Espanha

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Para Melhor Compreender a Política


Com os conhecimentos adquiridos na experiência da vida cotidiana estamos aptos para dizer que entendemos os mecanismos que garantem nossos direitos? Esta questão é da mais alta importância, e deveria estar na mais alta conta de cada indivíduo de uma sociedade. Quando pensamos em política, lembramos das instituições pelas quais se administra um governo, e na prática a estas relacionada. Sabemos também que existe a política não institucional presente em quase toda atividade, na fábrica, na igreja, dentro de casa. E lembramos sua degeneração conhecida como politicagem. E existem as políticas, que formam uma trama complexa dentro da política.

A forma pela qual se configura a política institucional em nosso país é um modo específico que existe por determinado motivo. Em geral esta forma – a democracia representativa, parlamentar ou presidencialista, com os três poderes, etc. – é tida não apenas como a melhor, mas como a única pensável para a nossa sociedade. É importante entender como ela funciona na teoria e como funciona na prática, para podermos avaliar sua eficácia. Um filósofo chamado Marx demonstrou duas coisas importantes: (1) Não apenas a forma de administração política, como a própria concepção de política tida atualmente, é resultado de uma construção histórica. Por exemplo, um estudioso pode ter muito conhecimento sobre a história, mas se ele não sabe que a própria concepção da História é histórica, ou seja, desenvolvida historicamente, ele não sabe tanto assim. Em sua ignorância, achará que aquela é a única interpretação correta da história, e considerará qualquer outra um absurdo. Com a política se passa o mesmo. A forma como concebemos a política é fruto de um momento específico da história, que condiz com determinada visão de mundo. A importância neste conhecimento reside no fato que antes se considerava a concepção da época como única, imutável, natural, e este erro leva a outros; e (2) a política reflete as relações sociais de cada época. Mas a relação é mutua, pois se num momento estas relações sociais são causa, noutra são efeito, e assim ambas se influenciam mutuamente, assim como a economia, a cultura e etc.

Sabendo destas coisas podemos desmistificar muitos dos conceitos sobre a política. Muitas confusões se dão por um problema linguístico: as palavras carregam mais de um significado, e em muitas discussões estes significados se confundem, e assim duas pessoas falam sobre coisas diferentes achando que estão falando da mesma. Palavras como “governo”, “democracia”, “ditadura”, “capitalismo”, ”socialismo”, “violência” e tantas outras estão tão ligadas a diversos conceitos que torna-se difícil dissociá-las daqueles. Portanto é necessário haver um esforço para se compreender o significado que se empresta a estas palavras no seu contexto, e para isso é necessário conhecer sobre elas mais do que nossas concepções vulgares e corriqueiras, concepções que muitas vezes não nos questionamos de onde vem e porque são desta forma. Para isso é necessário mente aberta e curiosidade científica, e apenas assim, com o tempo, ampliamos nossa visão a respeito do tema.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ato Pelos Guarani-Kaiowá foi Internacional


Ato em São Paulo

Mais de 50 cidades em todo país além de outras fora dele realizaram, a maioria a partir das 17:00 horas do dia 9 de Novembro, encheram-se de militantes, estudantes, trabalhadores e índios de verdade para denunciar o crime cometido pelo agronegócio contra as populações indígenas, e mais especificamente naquele momento pelos Guarani-Kaiowá, como havia sido previsto (ver texto Nota sobre o caso Guarani-Kaiowá e a situação indígena no país).


Ato na Alemanha

Pintando seus rostos, erguendo cartazes e bradando gritos de guerra, as ruas foram tomadas para que um diálogo fosse estabelecido com a sociedade e para chamar a imprensa a fim de fazer a população exigir dos governantes a demarcação as terras dos Guarani-Kaiowá e das demais comunidades indígenas.





 Ato em Brasília

 Como aponta o Comitê de Solidariedade aos Guarani Kaiowá, “Dentre os maiores inimigos está o agronegócio, cuja face mais nefasta é a monocultura de cana-de-açúcar e soja, além da pecuária extensiva. É neo-desenvolvimentista capitalista devastando nossa terra. Nesse sentido, contribuem para o massacre no Mato Grosso do Sul, não só fazendeiros, mas também o Governo Federal, comprometido com o capital e as instituições cúmplices, destaque para a omissão da Funai”


Ato em Curitiba

Eles possuem uma campanha de arrecadação de alimentos e contribuição em dinheiro para a população guarani-kaiowá que estão em acampamentos e sitiados por pistoleiros (milicia) contratados pelos fazendeiros.

Ato em São Paulo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Nota sobre o caso Guarani-Kaiowá e a situação indígena no país


Atualmente há uma mobilização intensa a respeito do caso dos índios Guarani-Kaiowá. Estes índios, da aldeia Pyelito Kue, lutam pela posse da terra na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Eles vivem, como sempre viveram, em terras das quais proprietários reivindicam como suas com título de propriedade, e conseguiram uma liminar na justiça exigindo sua expulsão.

Em toda a história do país, desde sua conquista há 500 anos, os proprietários vem exterminando, escravizando e empurrando os índios à miséria. O que mudou foi o ritmo com a qual se faz isso. Já faz anos que a aldeia em questão é vítima da violência dos fazendeiros, e entre 2010 e setembro de 2012 foram registrados, apenas na Reserva Indígena de Dourados, 71 casos de índios assassinados (os fazendeiros possuem jagunços que desde sempre aliciaram povos indígenas e trabalhadores rurais). Também é altíssimo o número de suicídios:  Dados do Ministério da Saúde divulgados neste ano mostraram que, de 2000 para cá, 555 indígenas dessa etnia cometeram suicídio, cometidos por falta de perspectivas.

Uma carta deles próprios ao governo que solicitava que ao menos os matasse e enterrasse em suas próprias terras, dando a entender que preferiam morrer do que ser expulsos, gerou uma comoção nacional e graças a pressão do povo em todo o país a liminar foi derrubada, deixando para os 170 índios da aldeia uma área de 1 hectare, ou seja, menos que suficiente. Eles não tem garantia de nada, no entanto, pois eles precisam ter seu território demarcado pelo Governo Federal. Nos últimos dez anos, entretanto, quase não houve avanços na demarcação de territórios indígenas no país.Para sobreviver, a aldeia conta com a doação de duas cestas básicas a cada 15 dias. Alguns índios ainda recebem o bolsa família do governo federal. Em quanto isso os latifundiários se organizam para tocar o terror nos índios. Neste tempo uma índia de 23 anos foi capturada por oito jagunços e estuprada, comprovado no exame de corpo delito.

A revista Veja, porta voz do agro-negócio e de tudo que há de mais atrasado no nosso país, lançou uma matéria que deturpa a situação dos índios, matéria da qual foi repudiada por nota pelas lideranças dos próprios índios.

Neste dia 9 (sexta-feira) às 17:00 haverá um Ato Nacional em solidariedade aos Guaraní-Kaiowá, com participação de mais de 50 cidade nacionais, além da Alemanha e Portugal, donde grupos já comprovaram a participação, até agora. Aqui em Curituba a concentração será próximo à Boca Maldita e contará com diversas entidades, incluindo índios representando suas comunidades.

Este caso, como já foi dito, infelizmente não é um caso isolado, senão ao menos pela comoção que gerou, se destacando por ter despertando tanto barulho quando tantos outros casos morrem silenciosamente. Atualmente a A Proposta de Emenda à Constituição 215/2000 (PEC 215) é a maior ameaça aos povos indígenas e quilombolas. Nascido da Bancada Ruralista com apoio da Bancada Evangélica, transfere a demarcação de terras para o congresso nacional controlado pela própria Bancada Ruralista. Assim eles poderão paralisar as demarcações que estão muito longe de estarem concluídas e ainda dissolver as já demarcadas.

A isso se seguem casos como Belo Monte e o Código Florestal. A seguir coloco um link com um documentário mostrando um caso real do qual um fazendeiro promove o massacre de uma aldeia e permanece impune até hoje. O documentário chama-se Corumbiara, e tem quase 2 horas. Não é uma filme da Disney, e é um pouco cansativo, mas informar-se dói mesmo. Assista inteiro. Infelizmente eu não encontrei o filme com legenda, pois quando eu assisti as falas dos índios estavam legendadas, e assim perdia-se muito pouco. Mesmo assim poder-se-á entender os acontecimentos graças à narração.

http://www.youtube.com/watch?v=2sKHJ6GdUf4

Abaixo alguns links a respeito do caso

http://www.ebc.com.br/cidadania/2012/10/liminar-que-determinava-saida-dos-guarani-kaiowa-em-ms-e-suspensa
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/11/05/india-guarani-kaiowa-estuprada-tem-medo-mas-diz-que-nao-saira-de-area-ocupada-em-fazenda-no-mato-grosso-do-sul.htm
http://www.msnoticias.com.br/?p=ler&id=96116http://www.brasildefato.com.br/node/11042
http://www.brasildefato.com.br/node/11033http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/10/121024_indigenas_carta_coletiva_jc.shtml